Manhã de cerração pesada e chuvisco fino. Dessas bem gramadenses. Das que dão a sensação gostosa e molhada de ir redescobrindo o cenário costumeiro, quando este aparece e desaparece em meio às nuvens que nos vêm do Vale. Dia que pode parecer imperfeito para o turista, mas um maná de sensações para os da terra que, como eu, devem fazer quilômetros com as pernas para o bem do coração.
Assim, resolvi perder-me nas ruas cheias de árvores, silenciosas casas e raros carros que passam, no Bairro Planalto. A essa hora, a bruma se insinua, audaciosa, pelos ramos, faz gotejar os pinheiros, esconde os jardins e pátios e dá um fim surpreendentemente branco ao curto horizonte. Todas as direções só têm trinta metros de extensão. A cerração traz uma harmonia padronizada para o espaço e parece nos colocar no centro de tudo.
“Moço, moço, por favor, moço!”, me acordou do torpor esfumaçado para uma realidade que soava como desespero e angústia: “Moço!” Em meio à bruma, segurando um desses guarda-chuvas chineses de R$ 1,99, que são um pouquinho mais sólidos do que as gotas dágua das quais supostamente protege seus portadores, me chamava essa senhora, estendendo um dos braços e apontando para algo que deveria estar mais próximo de mim do que dela. A princípio não entendi, mas quando ela disse: “a cachorrinha moço, por favor, segura ela”, me dei conta de que a manchinha branca que se movia ligeira sob um pé de hortênsias era um cãozinho, muito branco e peludo, que levava um laço vermelho no pescoço. Estava a uns dez metros, movendo-se na minha direção. Abaixei-me, fiz o maior semi-círculo possível com meus braços e esperei que o bichinho se aproximasse. Lá, mais ao longe, a senhora segurou com mais força seu guarda-chuva e levou a outra mão à boca na expectativa de que seu drama acabasse alí mesmo.
A cadelinha andou um pouco mais, olhou-me fixa com seu olhinhos muito negros e brilhantes, ficou em dúvida, como eu fiquei, parou e esperou. Nós três ficamos muito quietos naqueles poucos segundos em que tentamos pensar um com a cabeça dos outros dois: vem? não vem?; vou? não vou?; pega? não pega?
Amedrontada, sentou-se próxima ao muro; eu fiz a melhor cara que tenho para atrair cachorros e comecei, ainda agachado, a mover-me sutilmente em direção ao animalzinho. Braços abertos, olhos fixos, movimentos lentos. Sentia-me como uma serpente pronta a dar o bote em plena Rua Piratini, em meio à cerração. Meus pés moviam-se, de lado, em um zigue-zague silencioso fazendo-me parecer dançar um “Charleston” inesperado. A cachorrinha respirava cansada, sua língua rosada pendia dos dentinhos curtos, os olhos fixavam-se uma vez nos meus olhos, outra nos meus pés. Era um namoro de desconfiança, uma espécie de magia entre seres diferentes. “É da minha patroa, moço” foi a frase gritada que quebrou o encanto. A cadelinha pôs-se de pé e correu tão rápida que eu mal a vi até que sumisse na esquina nublada. Atrás, gritando “Xuxa! Xuxa!”, foi-se a senhora com o guarda-chuva. As duas desapareceram em meio à bruma matinal enquanto as ruas do Bairro Planalto continuavam calmas e silenciosas nesta manhã de fim de primavera. |  | |